Curadoria 2019

“AO REDOR DO BURACO,
TUDO É BEIRA.”

Ariano Suassuna

Ser artista independente no Brasil sempre foi um ato desafiador e de intenso comprometimento. A descontinuidade das políticas públicas no campo da cultura, os investimentos escassos tanto em âmbito público quanto privado, a relação da sociedade com a arte e a cultura reduzida a mero entretenimento e consumismo, a pouca valorização do ensino das artes nas escolas, a escolha do patrocínio cultural por parte das empresas via leis de incentivo, em sua maioria voltado para ações de marketing empresarial, entre muitos outros, são aspectos que fazem com que o trabalhador da cultura enfrente uma série de entraves para fazer do seu importante trabalho algo possível. Cultura é arte, é educação, é segurança, é economia. Está presente em tudo o que há de mais importante nas nossas vidas. 

Única instituição em nosso país que há 70 anos investe continuamente no campo cultural, o Sesc movimenta a economia da cultura em todo o território nacional, possibilitando que profissionais desenvolvam seu trabalho com respeito, dignidade e estrutura, compartilhando com os públicos magia, imaginação, reflexão, discussão, emoção e tantas outras sensações indescritíveis. A sua atuação, portanto, é fundamental para a existência e o fortalecimento de ações que primam pela criação, pesquisa, mediação, formação e apresentação das manifestações artísticas em suas mais diversas formas de expressão. É um orgulho para nós, integrantes desta potente rede, comemorar aniversários longevos de nossos projetos, como neste ano estaremos celebrando a 22ª edição do Palco Giratório.

Os desafios trazidos pelo ano de 2019 nos convocam a repensar estratégias nos modos de atuação e fruição do circo, da dança, do teatro e de suas interfaces, para promover a existência e a sustentabilidade das artes cênicas. Tais estratégias estão associadas ao fortalecimento de ações em rede, pautadas na colaboração e no compartilhamento, para que possamos, juntos, lidar com o que é disruptivo. Encarar a rede como uma maneira de re-existir e de ressignificar modos de operar é uma atitude fundamental para a manutenção de ações culturais nos dias de hoje.

Precisamos criar, por meio da arte, zonas autônomas temporárias que nos possibilitem vivenciar o dissenso, acionando a ancestralidade como um saber de resistência e como ativação perene da coletividade. Precisamos estabelecer uma comunicação mais direta e efetiva com as gerações do presente e as que estão por vir. 

Nesse contexto, o nosso desejo é que este catálogo seja uma ferramenta de pesquisa e de invenção, com a qual você poderá conectar-se com as propostas dos espetáculos que irá assistir, além de conhecer, através dos textos, um intenso paralelo entre arte e vida, presente nas questões que mobilizaram a curadoria em suas escolhas

Um importante acontecimento do Palco Giratório 2019 é a presença de espetáculos que foram gerados em projetos do Sesc. Este feito nos faz ter a certeza de que estamos no caminho certo e de que nossas ações fomentam novas cenas locais capazes de reverberar propostas inovadoras e desafiadoras para os nossos públicos. Nesse sentido, convidamos para a seção Relato de Experiência os profissionais de artes cênicas do Sesc Alagoas e do Sesc Amazonas, que compartilham conosco um olhar sobre os projetos Gesto e Residência de Artes Cênicas do Sesc, nascedouros de dois espetáculos que você poderá conferir nesta circulação. 

Ampliar redes é também estabelecer uma comunicação efetiva e estruturada para que possamos nos conhecer e mapear potencialidades do que cada um tem para oferecer. Sendo assim, o tema da mediação cultural tem uma centralidade na programação deste ano, pois é do nosso interesse conhecer nossos públicos e trazer para perto quem ainda não está junto de nós. Há cerca de três anos, a Rede Sesc de Intercâmbio e Difusão de Artes Cênicas tem pesquisado e aprendido sobre este assunto. Durante a circulação 2018, tivemos a oportunidade de experimentar um projeto piloto de mediação cultural que, além de coletar informações sobre as pessoas que frequentam o Palco Giratório, realizou atividades de aproximação entre públicos e espetáculos da circulação, com o envolvimento de mediadores locais. Foi uma linda experiência, contada pelos profissionais que realizaram esta proposta-piloto junto à coordenação geral do Palco Giratório, Rita Aquino e Felipe Assis, no artigo “Como fazer juntos? Práticas colaborativas em mediação cultural”, que traz também um rico desenvolvimento conceitual do tema e valiosas referências bibliográficas. 

Também como desdobramento das ações de mediação cultural e do que elas nos inspiram, destacamos neste ano a presença de propostas que não configuram necessariamente a apresentação de um espetáculo, e que estamos chamando temporariamente de “cena expandida”. São propostas que sugerem um tempo de relação mais dilatado com as cidades e seus públicos, envolvendo a realização de residências, mapeamentos e oficinas estendidas. São elas que configuram o Circuito Especial 2019: Performance Preta no Brasil (MA), Audiodescrição Lab (PE/SC) e Femi-Clown Cabaré-Show (DF). Por meio destas ações, outras temporalidades entre artistas e públicos serão construídas e poderemos experimentar novas facetas que o projeto pode assumir e que ainda desconhecemos. Você poderá conhecer um pouco mais sobre duas destas propostas na seção Bate-Papo. 

E por fim, você poderá se informar sobre cada grupo integrante do circuito, conhecendo suas ideias e fazendo seu próprio recorte curatorial e conceitual do Palco Giratório 2019. 

Para a curadoria, um tema que perpassa a programação como um todo está relacionado com o conceito de “lugar de fala”, trazido por diversos espetáculos do circuito a partir de diferentes óticas: a dos povos indígenas, das mulheres, dos corpos negros, dos corpos com deficiência e dos corpos trans, entre outras. Sobre esta questão, a filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro publicou um importante livro – O que é lugar de fala? – que apresenta um rico panorama conceitual sobre o lugar de fala e seus impactos na sociedade, com base em informações e indicadores sociais. “Pensar em lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado, um movimento no sentido de romper com a hierarquia” – afirma a autora (2017, p. 90). Exercitar o conceito de lugar de fala é saber escutar e aprender com o poder dos corpos subalternizados historicamente sem que eles precisem ser mediados por nenhuma outra instância que não eles mesmos. É um conceito que nos ensina a tensionar a relação entre maiorias e minorias e a desconstruir noções engessadas de democracia. 

Neste contexto, é muito importante destacar que praticamente todos os espetáculos são protagonizados por poderosos corpos que deslocam e reconfiguram linhas imaginárias. Corpos periféricos e marginais. Corpos urbanos e ancestrais. Corpos periféricos que borram territorialidades e se tornam centro. Corpos da diferença. Corpos antropofágicos. Corpos hackers que desviam as rotas e promovem outras configurações possíveis de atuação no mundo. 

Convidamos você e sua rede de afetos para tecer uma grande teia conosco. Pois é para você que o trabalho do Sesc existe. É através de você que a arte se corporifica e pode resistir.