Sesc PR
Paraná

Entrevista com Adélia Prado, escritora homenageada pelo Sesc PR em seu maior evento literário

A palavra aproxima pessoas, desperta sentimentos, preserva memórias e amplia o olhar sobre o mundo. É por meio dela que são compartilhadas experiências, contadas histórias e são dadas formas aos sentimentos. É essa força que inspira a 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro que celebra a palavra e homenageia Adélia Prado, escritora que fez da literatura um espaço de sensibilidade e transformação.

Uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea, Adélia construiu uma obra singular, marcada por uma escrita profundamente humana. Em seus textos, revela a beleza do cotidiano e convida o leitor a olhar a vida com mais sensibilidade. Sua trajetória foi reconhecida com importantes distinções, como o Prêmio Jabuti, por O Coração Disparado, o Prêmio Camões e o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras.

Foi a palavra que nos aproximou de Adélia Prado, que respondeu por escrito, à distância, esta entrevista, mas não economizou presença. Suas respostas vieram enxutas, como se cada pergunta coubesse, inteira, em uma única frase certeira. Não há rodeios em sua fala, assim como não há rodeios em sua poesia. Adélia Prado não gosta de desperdiçar palavras. Quem espera de uma poeta respostas longas, cheias de digressões e metáforas explicativas, se surpreende: aos 90 anos, ela responde como escreve seus melhores versos – na medida exata, sem gordura, sem enfeite que não sustente o sentido. Cada resposta é uma frase que poderia estar em um de seus livros, isolada, funcionando sozinha. As respostas vieram exatamente como se esperaria de quem, no poema Antes do Nome, já havia avisado que não lhe interessa a palavra corriqueira, e sim “o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe”. Direta mesmo quando fala do inefável. Concisa mesmo quando fala de mistério. Adélia responde como quem já sabe, há muito tempo, que a poesia não precisa de explicação — só precisa de espaço para acontecer.

Confira a entrevista na íntegra:

A senhora começou a publicar aos 40 anos, com “Bagagem”, depois de décadas escrevendo em silêncio, longe do público. O que mudou quando ela passou a pertencer também aos leitores?

Adélia Prado: Publiquei mais tarde, mas, desde a mais tenra infância, a poesia faz parte da minha vida. Claro que a presença dos leitores na experiência do poeta muda tudo. Fiquei mais feliz!

Nosso cancioneiro e literatura são ricos em canções e poemas que trazem o cenário das ferrovias, mesmo de maneira metafórica. Sua vida e seus poemas também trazem este universo, Drummond disse que a senhora é “atravessada” pela poesia como quem não escolhe o caminho. A vida à beira de uma ferrovia é mais reflexiva, contemplativa?

Adélia Prado: A poesia aceita qualquer fonte de inspiração, viva o poeta onde viver.

 A senhora escreveu a partir de Divinópolis, uma cidade do interior de Minas Gerais, sem jamais parecer provinciana. O que Divinópolis representa para a senhora e o que o interior ensina sobre a condição humana?

Adélia Prado: No interior ou na grande metrópole, a condição humana é a mesma.

A senhora já disse que poesia é uma experiência de revelação e também já declarou que, às vezes, ocorre de Deus tirar a poesia da senhora e uma pedra ser apenas uma pedra. E como fica sua existência quando a poesia lhe é tirada?

Adélia Prado: A poesia é um fenômeno misterioso. Não há como “estumar” as musas.

Como a senhora imagina que a poesia sobreviverá em uma época dominada por algoritmos e velocidade? O excesso de informação está nos tornando menos atentos ao sagrado?

Adélia Prado: Só se quisermos. Talvez possamos pensar em mais obstáculos em nossa realidade atual, mas não sei, precisaria ter tido a experiência em um mundo antigo pra falar sobre isso com certeza. Quais terão sido os obstáculos enfrentados pelo mundo na época em que Rumi viveu? Acredito que o exercício do sagrado é possível em qualquer era.

A senhora escreveu sobre o corpo com uma liberdade rara. Falou sobre desejo, envelhecimento, doença. Como mudou o jeito de escrever sobre o corpo ao longo dos anos? 

Adélia Prado: O que mudou foi minha coragem de abordar alguns temas. Não se trata do que penso, mas do que experimento. E a experiência acontece no corpo. Não há como fugir de mim pra escrever.

Há algum ou alguma poeta contemporâneo, mais jovem, que tenha surpreendido  a senhora nos últimos anos? 

Adélia Prado: Fui surpreendida pela poesia de Jorge Emil.

O tema da 45ª Semana Literária deste ano é Tudo Cabe na Palavra e ao ler sua obra, temos a impressão de que a senhora vem, há décadas, demonstrando isso, transformando o cotidiano, a fé, o amor e, até o trabalho doméstico, em literatura. Existe alguma experiência humana que, para a senhora, não caiba ou não tenha espaço na palavra? Ou a palavra sempre encontra um caminho para alcançá-la?

Adélia Prado: Sim, a palavra encontra seu caminho. Mas é bom lembrar que há o inefável. Algumas palavras foram inventadas para serem caladas.

A senhora é a autora homenageada em 2026, em nossa Semana Literária. Mesmo sem poder estar entre nós fisicamente na homenagem, sua poesia estará lá, sendo lida por quem ama seus versos. O que gostaria que essas pessoas sentissem ao ouvir seus poemas nesse momento? Tem algo que gostaria de dizer ao público paranaense, mesmo estando longe? 

Adélia Prado: Tenho boas lembranças do Paraná e estou muito honrada com essa homenagem. Meu coração está agradecido. Quero que recebam toda a minha alegria e comoção.