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Paraná

Daniela Arbex emociona plateia na Semana Literária Sesc e Feira do Livro

Autora de Holocausto Brasileiro, Cova 312, Todo Dia a Mesma Noite, Arrastados e Longe do Ninho, jornalista mineira falou sobre memória, empatia e o compromisso com as famílias que protagonizam suas reportagens

A jornalista e escritora Daniela Arbex subiu ao palco neste sábado (15), na 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro, em Curitiba, para o bate-papo “Narrar para não esquecer”, mediado pela advogada, professora de direito criminal e escritora Marion Bach. Eleita a melhor repórter investigativa do Brasil pelo Troféu Imprensa, vencedora do Prêmio Esso, Prêmio Vladimir Herzog e Knight International Journalism Award e o Ipys de Melhor Investigação Jornalística da América Latina, é autora dos premiados Holocausto Brasileiro, Cova 312, Todo Dia a Mesma Noite, Arrastados e Longe do Ninho – vencedor do Prêmio Jabuti 2025. 

Daniela conduziu a plateia por três décadas de pesquisas e reportagens que se tornaram literatura, e literatura que se tornou memória coletiva do país. “Nem sempre é o jornalista que escolhe a história que vai contar. Eu me sinto escolhida pela história”, disse logo na abertura, ao responder sobre o critério que a leva a mergulhar em tragédias como o Holocausto Brasileiro, que nasceu do impacto de fotos feitas em 1961 dentro do maior hospício do país, o Colônia, em Barbacena, ou como Todo Dia a Mesma Noite, que reconstituiu o incêndio da Boate Kiss a partir de uma resposta de mãe nas redes sociais. Cova 312 veio de uma matéria de jornal que a levou a localizar a sepultura de um militante político desaparecido havia 35 anos. Arrastados nasceu no próprio dia do rompimento da barragem de Brumadinho, quando familiares de uma engenheira desaparecida pediram sua ajuda pelas redes sociais. E Longe do Ninho, sobre os dez jovens do Flamengo mortos no Ninho do Urubu, começou pela dor de uma mãe.

Questionada sobre como evita ser “engolida emocionalmente” pelas histórias que apura, a autora foi direta: “É impossível você não se envolver com a história do outro. E é bom que seja impossível, porque para tocar o outro a gente precisa ser tocada por ele.” Ela contou que, durante os dois anos de apuração de Todo Dia a Mesma Noite, chegou a engordar dez quilos e perder metade do cabelo, e que precisou de tempo para entender seu papel diante da dor alheia. “Meu lugar nessas histórias é um lugar de muito privilégio. Memória afetiva é um espaço tão íntimo que você só entra se for convidado.”

Daniela também detalhou o processo de apuração de seus livros: entrevistas gravadas que somam milhares de páginas de transcrição, meses de leitura e organização de cada relato em cenário, diálogo e sentimento, e a construção de um “esqueleto” narrativo antes da escrita propriamente dita, que costuma tomar seis meses de trabalho diário. Um ritual se repete a cada obra: a leitura de capítulos para as famílias antes da publicação. “Preciso saber como os pais vão descobrir como os filhos morreram. Foi a coisa mais difícil que eu já fiz”, disse sobre a reconstituição da madrugada do incêndio no Ninho do Urubu, quando reconstituiu, a partir de croquis da polícia, o percurso de cada um dos dez meninos até a porta do contêiner.

A rigidez da apuração, segundo a autora, também gerou desdobramentos concretos fora das páginas: Todo Dia a Mesma Noite foi anexado ao processo do Ministério Público e usado no Tribunal do Júri; Arrastados tornou-se referência bibliográfica na formação de bombeiros de Minas Gerais e bibliografia obrigatória em concurso público no Sul do país; e Longe do Ninho foi decisivo para que a única família que não havia fechado acordo com o Flamengo – depois de quatro anos sem resposta na Justiça – fosse enfim indenizada.

Bate-papo “Narrar para não esquecer”, com Daniela Arbex e mediado por Marion Bach | Crédito imagem: Cassiano Rosário

Parte das obras já ganhou o audiovisual: Holocausto Brasileiro virou documentário da Netflix, com Daniela na codireção e no roteiro; Todo Dia a Mesma Noite tornou-se série de ficção que alcançou o top 10 mundial da plataforma; e Arrastados está em produção como série documental para o GloboPlay, com estreia prevista para janeiro de 2027. Em todas, a autora exige contratualmente ser consultora criativa. “Mesmo sendo ficção, é baseado numa história real. A gente tinha que ter o cuidado de manter as características das famílias.”

Sobre seu próximo livro, previsto para fevereiro de 2027, a autora não revelou o tema, protegido por cláusula de confidencialidade, mas adiantou que a protagonista é paranaense e que a pesquisa a trouxe a Curitiba diversas vezes nos últimos dois anos. “É uma história muito incrível, de uma mulher muito potente. Vai surpreender vocês, porque é diferente de tudo que eu já fiz até aqui.”

Daniela encerrou lembrando a mensagem de uma mãe ao receber, antes do lançamento, um exemplar de Todo Dia a Mesma Noite: “Receber teu livro foi como receber a minha filha de volta. É por isso que eu faço o que eu faço.”

Daniela Arbex | Crédito imagem: Cassiano Rosário