A jornalista e mestre em Divulgação Científica e Cultural, Bia Guimarães, cocriadora do podcast 37 Graus, do site Cochicho, repórter, roteirista e editora de som na Rádio Novelo, Bia Guimarães, participou em Curitiba, na 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro, do bate-papo “Escutar e Imaginar Mundos”, com a jornalista, professora e artista multimídia, Ana Lesnovski.
Bia chegou ao podcast por um caminho que ela mesma descreve como inesperado. Jornalista formada com o sonho de trabalhar em uma revista, foi durante o mestrado que encontrou o formato que mudaria sua trajetória. Ao lado da bióloga Sara Zaú, criou o podcast científico 37 Graus, projeto autodidata e artesanal, feito “de madrugada, de fim de semana”, sem qualquer contato prévio com o universo do áudio ou da literatura. Ela contou que foram sete temporadas – “não as mais ouvidas do país”, mas, segundo ela, motivo de orgulho genuíno. Hoje, na Rádio Novelo, produtora carioca conhecida pelo podcast semanal Rádio Novelo Apresenta, Bia assina reportagens, roteiros e a construção sonora de histórias que, em suas palavras, buscam surpreender o ouvinte e provocar reflexões inesperadas.
Quando a abordagem foi sobre a tensão entre a formação jornalística tradicional que costuma afastar o repórter da própria subjetividade, Bia contou que, ao longo da carreira, sempre ocupou esse lugar de assumir a própria participação na narrativa, mas revelou um desejo recente de inversão: quer se desafiar a contar histórias mais distanciadas dos personagens.
Sobre o processo de escrita, ela comparou fazer podcast narrativo a “escrever com a palavra dos outros”– entrevistar pessoas e depois organizar o material coletado como quem monta um quebra-cabeça, criando camadas, provocando encontros de ideias que ainda não existiam no mundo.

Apuração, checagem e histórias que não vingam
A conversa também passou pelos bastidores da apuração de histórias pessoais. Bia explicou que toda pauta do Rádio Novelo Apresenta passa por checadores externos à equipe, que confrontam detalhes e cronologias sem, no entanto, desconfiar da essência das memórias contadas pelos entrevistados. Ainda assim, nem toda história pessoal sobrevive ao processo.
Um dos pontos altos do encontro foi a descrição do processo de construção sonora – a “sonorização” que transforma um roteiro em experiência. Bia contou, com entusiasmo, sobre a pesquisa minuciosa por trás de um episódio do podcast O Pico dos Marins: para recriar a paisagem sonora de uma trilha nas montanhas paulistas, precisou pesquisar quais espécies de pássaros cantam naquele ponto específico, em determinado mês e horário.
Ela também falou sobre os limites éticos do design sonoro e e sobre como o áudio permite abstrações impossíveis em imagem, citando um episódio sobre as origens do universo sonorizado com barulhos cotidianos, como uma máquina de lavar e uma sopa fervendo.
Comunidade e o mercado do podcast
Para Bia, o setor já viveu dias melhores. Depois do boom da pandemia, viu fechar produtoras importantes e hoje enfrenta o desafio da descoberta de conteúdo, algo que plataformas como o YouTube resolvem com mais facilidade. Ainda assim, apontou caminhos de sustentabilidade que vêm funcionando no país – publicidade, patrocínio, clubes de assinantes, editais e leis de incentivo.
O conselho para quem quer começar
Questionada sobre o que diria a alguém que sonha em criar um podcast, Bia foi enfática: comece pequeno. Produza um piloto, conte uma única história, de preferência com o material mais simples possível de apurar, antes de se lançar em projetos ambiciosos demais. Segundo ela, o entusiasmo por grandes séries pode, paradoxalmente, ser o que impede o projeto de sair do papel.