A psicanalista, escritora e professora Ana Suy, autora do best seller A gente mira no amor e acerta na solidão, publicado no Brasil e em outros seis países, esteve na 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro, em Curitiba, dialogando com a mediadora Sara Duim sobre amor, tédio e o poder, além dos limites da palavra, em diálogo direto com a obra de Adélia Prado – homenageada desta edição do evento.
Ana Suy recorre à literatura em seus livros, cada capítulo é iniciado com uma citação, muitas delas de
Clarice Lispector. Para ela, psicanálise e literatura poética ocupam o mesmo lugar. “Eu fiquei com o desejo de me comunicar não só com colegas psicanalistas e acadêmicos, mas com gente comum, gente que vive a vida e tenta resolver as coisas vivendo a vida. As pessoas perguntam como eu junto as coisas. Eu não junto, elas são a mesma coisa.”
A partir de um verso de Adélia Prado – “a palavra é disfarce de uma coisa mais grave” –, a mediadora conduziu a conversa para o papel da palavra na psicanálise. Ana Suy recorreu a Lacan para explicar que a palavra não é apenas instrumento de comunicação: “A gente só é a gente a partir do que a palavra fez de nós.” Ela lembrou que, em uma sessão de análise, o que importa não é o que a pessoa queria dizer, mas o que efetivamente disse, ou seja, o desejo inconsciente escapa à intenção. “Entre o que eu penso e o que eu digo existe um abismo. Entre o que eu digo e o que o outro escuta, existe outro abismo”, resumiu, ao descrever a experiência de sair de uma sessão de análise com a sensação de que sempre falta dizer algo.

A conversa passou também pelo excesso de estímulos da vida contemporânea e por uma reflexão que Ana Suy já havia feito nas redes sociais: a ideia de que boa parte do que hoje se chama tédio pode ser, na verdade, uma paz mal aproveitada. Citando o texto freudiano O Mal-Estar na Civilização, ela lembrou que o preço de viver em sociedade é abrir mão de parte da própria agressividade, o que gera um desconforto estrutural, e que a pressão por performance e comparação constante, intensificada pelas redes sociais, dificulta ainda mais que as pessoas parem e prestem atenção ao que já têm. A aproximação com Adélia Prado veio naturalmente: “A poesia da Adélia mostra justamente essa extraordinariedade da vida ordinária.”
Questionada sobre o amor entre amigos, tema do poema “Quando”, Ana Suy diferenciou esse afeto do amor-paixão. “No amor e amizade a gente conta com uma separação garantida, e o ódio aparece menos”, explicou, sem deixar de reconhecer que também existem amizades atravessadas por intensidade, ciúme e rivalidade.
No momento das perguntas da plateia, um dos participantes quis saber se a escrita funciona para Ana Suy como desabafo terapêutico. Ela foi direta: não. “Para desabafar eu tenho amigos e o próprio espaço da minha análise. Na escrita, eu quero outra coisa: a palavra.” Contou ainda que, no doutorado, chegou a tentar suprimir o tom poético de sua escrita acadêmica, até que a orientadora a incentivou a manter essa voz – um episódio que ela credita como decisivo para poder escrever, hoje, “do jeito que me era possível”.