O escritor, ilustrador e designer paulistano com mais de 90 prêmios no currículo – entre eles três Jabutis, a IBBY Honour List e indicação ao Prêmio Strega –, Rampazo esteve neste sábado (15) na 45ª Semana Literária Sesc e Feira do Livro, em Curitiba, para o encontro “Quem escreveu o desenho desse livro?”, mediado por Samara Rosa, doutoranda em Educação pela UFPR e pesquisadora da literatura para as infâncias. Os dois discutiram o que significa criar e ilustrar histórias que conversam com quem ainda não perdeu a capacidade de se espantar e encantar com o mundo.

Samara abriu o diálogo perguntando como Rampazo, autor e ilustrador de livros como O que você vê, Silêncio, Um Belo Lugar e Estrangeiros, mantém viva a conexão com a própria infância em seu processo criativo. O autor contou que sua paixão antiga pelo realismo mágico latino-americano só fez sentido quando ele entendeu sua ligação direta com o olhar infantil. “O adulto trabalha na frequência do concreto e a criança trabalha na frequência do poético”, resumiu. Para ele, é esse olhar inaugural – a capacidade de se deslumbrar com o que os adultos já naturalizaram – que aproxima a infância do impossível, do mágico, e é justamente esse território que ele tenta reocupar a cada livro.
Samara relembrou o relato do ilustrador curitibano Adilson Farias, que sonhava em reencontrar a professora dos primeiros anos escolares – não para agradecer, mas para mostrar a ela o que se tornou. Quando criança, ouvira da educadora que desenhar não levaria a lugar nenhum: “Você não vai ser ninguém desenhando.” Rampazo respondeu com uma lembrança quase idêntica. Aos 12 ou 13 anos, para um trabalho escolar de Educação Moral e Cívica, entrevistou um desenhista profissional sobre a carreira que sonhava seguir. Ouviu do próprio entrevistado que desenho era “uma profissão ingrata” e que dinheiro nenhum viria dali. “Eu saí de lá devastado”, contou e fez questão de completar: a devastação durou algumas semanas; o desenho, não desistiu dele.
Alexandre compartilhou que uma professora perguntou a uma turma o que cada criança queria ser quando crescesse. Entre médicos, jogadores de futebol e apresentadores de TV, uma criança respondeu que queria ser gafanhoto. A resposta da professora foi seca: gafanhoto não tem carteira assinada, não paga boleto. Rampazo comentou que aquele menino podia muito bem ter sido ele mesmo, anos antes, diante do desenhista que o desanimou.
Samara fechou o bate-papo com um relato de sala de aula: ao ler Estrangeiros com uma turma de alunos de seis anos de idade, viu as crianças perceberem primeiro as mudanças de cor no livro e, depois, se identificarem com as personagens que chegam de fora. Uma delas, ao fim da leitura, resumiu a experiência com uma frase que resume também o próprio encontro: “Descobri que minha mãe é estrangeira.”
Para os dois autores, é nesse deslocamento, de sentir, mesmo que por um instante, a pele de outra pessoa, que mora a função mais essencial da literatura para a infância: ensinar, cedo, o que é ser humano.