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Cultura: Palestra
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Bárbara Carine fala sobre a importância da valorização da identidade negra no Sesc Mulheres

Para uma plateia lotada e ávida para ouvi-la, a professora, escritora, empresária e palestrante reconhecida nacionalmente, Bárbara Carine falou ao público do Sesc Paço da Liberdade, na noite da última sexta-feira (6), na programação do Sesc Mulheres, sobre educação antirracista, equidade racial, pluralidade cultural e valorização do pensamento negro na construção do conhecimento.

Bárbara, que é doutora em Ensino de Química, professora da UFBA e vencedora do Prêmio Jabuti 2024 (Educação) com o livro “Como ser um educador antirracista”, abordou a importância da identidade negra e afrobrasileira, a necessidade de descolonizar o conhecimento e a luta contra o racismo estrutural na educação e na sociedade. 

Autora também de obras como “Querido estudante negro”; “E eu, não sou intelectual?”; “Educando crianças antirracistas”, Bárbara explicou que o marcador subjetivo de representatividade se refere à forma como as pessoas brancas se veem representadas em todos os espaços de poder e influência. Que mundo é naturalmente representativo para pessoas brancas, permitindo que elas se projetem em diversas carreiras e posições. Em contraste, pessoas negras, mesmo em posições de poder, lutam para se ver representadas, enfrentando o desafio de um espelho quebrado. “Isso é um marcador subjetivo de representatividade. Pessoas brancas entendem sobre representatividade do campo literário. Não é o conceito do seu paradigma de vida, porque o mundo é representativo para ela. A racialidade brasileira é territorial. A subjetividade de uma pessoa branca é de autoprojeção. A intelectualidade para a pessoa branca é uma projeção rápida, imediata, mas para nós é um espelho quebrado. A gente se torna intelectual, não vive, e este salto é muito difícil, é duro”, destacou Bárbara.

Racismo estrutural

A palestrante falou do racismo sob duas óticas: a estrutural e a do crime. Sob o racismo estrutural – ou sistêmico – , ela salientou que se trata de um problema que está presente na literatura, nos filmes, novelas e que forma o imaginário coletivo social com marcadores de hierarquização social e, mesmo quem não quer ser racista pode vir a reproduzir o racismo estrutural sem perceber, pois ele molda o pensamento. “O imaginário coletivo social é permeado por marcadores de hierarquização racial. Mesmo que você não queria praticar o racismo, mesmo que você seja militante, o racismo é estrutural. Existe também o politicamente correto e o que é crime. Esses dias fizeram uma pergunta a um comediante da Bahia, Matheus Buente, qual o limite da piada e a resposta dele foi genial: ‘o Código Penal!’. O racismo no Brasil é crime”, pontuou.

Bárbara Carine lota a Sala do CinePensamento do Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba

Diversidade e Ciências

Sobre diversidade, Bárbara argumentou que ela não se constrói, mas se celebra e que a inclusão de diferentes perspectivas enriquece a produção de conhecimento e a experiência humana. Ela ainda revelou que em sua formação acadêmica percebeu a ausência de referências negras e a predominância de um “pensamento branco”, uma espécie de “colonização do pensamento” e a invisibilização das contribuições africanas para as ciências e a Filosofia. Como exemplos ela citou a origem da química, da matemática, com o Osso dos Libombos, papiros egípcios, teorema de Pitágoras, de outras ciências, mostrando que “o milagre grego é um mito moderno que apaga a genialidade africana”, e enfatizou a necessidade de resgatar histórias e a ancestrais africanos para reconstruir a humanidade negra a partir do intelecto. 

Escola Afro-Brasileira Maria Felipa

Bárbara, que também é cofundadora da Escola Afro-Brasileira Maria Felipa – a primeira escola afro-brasileira registrada pelo MEC –, destacou que a criação da escola foi uma resposta direta à necessidade de garantir que crianças negras conhecessem sua potência e história. Ela defende que o antirracismo deve ser um processo contínuo, presente em todas as áreas do conhecimento e não apenas lembrado em datas comemorativas. Também criticou a superficialidade de algumas abordagens antirracistas e a confusão entre antirracismo e politicamente correto. Por fim, destacou a importância de leis e políticas afirmativas, mas ressaltou que a luta e a denúncia são fundamentais para a efetivação de implementações de mudanças em ambientes acadêmicos e institucionais.

A programação do Sesc Mulheres se estende até domingo e a programação completa pode ser conferida

AQUI.