Curadoria

LITERATURA: VOZES PARA (RE)CRIAR O MUNDO

No início era o verbo e, com o verbo, a criação do mundo. Junto do mundo, o homem e a sua necessidade de criar e narrar a origem das coisas. Não é por acaso que reunimos tantas histórias sobre a criação, contadas oralmente, armazenadas no nosso imaginário e, mais tarde, gravadas nas páginas dos livros, para todas as gerações.

As tentativas de resgatar o mundo, fazê-lo crível, conferir-lhe sentido e transformá-lo nos remonta às mais belas investigações, compostas por personagens-heróis e anti-heróis nos mais inusitados cenários. Assim é a Literatura, o registro do nosso tempo, do nosso desejo, necessária como legado.

O crítico Massaud Moises, ao falar da criação literária e relacioná-la à apreensão do texto, aponta que tudo no homem se transforma, mas tais transformações decorrem de fatores individuais específicos que tornam cada um sempre a mesma criatura, diferenciada de seus semelhantes. Portanto, a leitura permite a cada um o desenvolvimento de subjetividades que transmutarão na sua individualidade. E que metamorfose e igualdade não se confundam! A metamorfose ocorre para que a igualdade se manifeste, e a igualdade supõe, dinamicamente, transformação.

O tema “Literatura: vozes para (re)criar o mundo” elucida as vozes literárias que compõem o cenário onde atuam a palavra e a poesia. Que vozes são essas? Para quem se fala? Como se manifestam essas vozes? A literatura permite, por meio da interação verbal e também corporal, a comunicação, a liberdade e a representação. Essas vozes em diálogo, em uníssono ou em monólogo– são capazes de promover mudanças significativas para o bem-estar social. Elas inspiram!

É promovendo o encontro de várias vozes que a 38ª Semana Literária pretende incentivar debates, oficinas, ações criativas e iniciativas transformadoras que reflitam sobre a relação da literatura e os tempos atuais, os corpos que a compõem e a atingem, as diferentes gerações de leitores, as liberdades que permeiam o estético e o interpretativo e as diversas possibilidades da leitura por meio de novas mídias e outras dimensões. Um convite para uma viagem com destino para a vida que, como poetiza Cecília Meireles, “só é possível reinventada”.

Os eixos a serem trabalhados serão:

Literatura, novas mídias e tecnologias;

Em um mundo acostumado com a localidade dos eventos e com a postura apenas de observador de fatos, solucionar inquietudes que a tecnologia trouxe passou a ser necessário. Em um século em que o rádio e a TV se tornaram membros da família, o som e a imagem em movimento começaram a ser usados para informar, entreter, transmitir ideais e contar histórias.

Por consequência, neste universo de possibilidades e fluidez como fortalecer e movimentar a literatura? Nunca houve um intercâmbio linguístico tão forte e rápido na história. Cada vez mais um número maior de palavras e novas expressões do mundo virtual são trazidos à vida cotidiana junto a uma leva de importações linguísticas.

A questão é: como utilizamos a ferramenta que nos expande sem cometermos o erro de lançar e/ou replicar falsos conteúdos? Na prática, devemos compreender que a busca por suportes de conhecimento que tenham transparência e fontes confiáveis é a atitude minimamente protetora da veracidade. O olhar atento ao que lemos, consumimos e assimilamos; o exame do que é relevante para replicarmos e comentarmos são pontos que os leitores precisam desenvolver cotidianamente.

A transformação é natural, a velocidade do pensamento e os leitores vão se adaptando, transformando o meio e pelo meio sendo transformados. Não há espaço para declarar que a literatura tem moradia expressa no papel. Hoje, ela abarca dentro outros espaços, o virtual. Nossas ponderações precisam ter lugar neste espaço de discussão.

Literatura como lugar de encontro;

Embora muito se discuta sobre as práticas de leitura e o alcance de uma obra literária – seja ela narrativa oral ou escrita – pouco se fala sobre o acesso à mesma. Embora estejamos inseridos em uma sociedade midiática em que se pode “folhear” um livro em um smartphone, muitas pessoas não tem acesso ao livro físico e essa condição não se deve somente ao fato de não existir uma biblioteca na cidade ou não ser alfabetizado. Muitas pessoas não leem porque acreditam que essa prática não pode ser dela. A questão é mais profunda que o pertencimento.

Promover o encontro do livro com o leitor pode ser uma tarefa árdua! Assim, a literatura é lugar de encontro, seja esse social, cultural, afetivo. Reencontro da mãe com o filho, das tradições. É lugar onde se pode ver o “outro” em vários momentos e lugares no universo, e se encontrar enquanto individuo, já que o “outro” é espelho. E nessa trajetória atemporal de encontros e desencontros, trocas e diálogos, a literatura vai buscando seu lugar e assumindo diferentes intencionalidades. Mas, afinal, quantos são os encontros que a Literatura pode proporcionar?

Literatura, corpo e performances narrativas;

Esse eixo temático é dedicado aos novos e “velhos” modos de fazer literatura com o corpo e em outros espaços (que não só o livro). Se as narrativas orais são uma tradição já antiga e compõem as origens do que entendemos por literatura, é evidente que o seu “modo de fazer” ganhou novas nuances e trouxe novos atores para o centro da produção literária. As batalhas de poesia, os slams, os saraus, os lambes, os perfis literários no Instagram, e tantos novos movimentos que se multiplicam pela necessidade de dizer (enquanto as editoras, com seus custos altos e interesse publicitário, ficam para trás na corrida pelos novos escritores e leitores no Brasil).

Que respostas são essas que chegam para escancarar a crise do livro? Por que o corpo e a presença ativa são tão importantes para esta nova geração – sedenta de ser ouvida? E mesmo as publicações rápidas, na internet, mais imagéticas do que nunca, o que elas nos mostram sobre o nosso tempo? É coincidência que na crise da leitura estejamos retornando e recriando modos de literatura oral a imagética? Que novidades são essas que compõem o modo de fazer literário no século XXI e o que elas dizem sobre o futuro da literatura?

Literatura e o exercício da liberdade;

A leitura é um ato que prevalece a liberdade de escolhas, permite expandir a memória e contribui para o processo de despertar da consciência crítica, política e social do indivíduo, além de estimular a produção de textos. Assim como a afirmação da escritora Clarisse Lispector “Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo.” A essência dessa autonomia literária não se limita ao leitor, mas ao papel do escritor que tem o poder de transmitir e eternizar de forma aberta sua consciência.

A literatura combate então o conformismo ampliando horizontes, trazendo a autonomia do pensar e do agir. Ela é subversiva e obscena. Torna coletivo aquilo que é individual, secreto e próprio. Ao expor o íntimo, ela permite que o indivíduo identifique sua história e outras histórias, nos faz capaz de compreender e aceitar o mundo do outro. A narrativa do outro. A liberdade do outro. Ou podemos falar, liberdades?

Criação literária e o processo de significar

A criatividade é a capacidade de produzir algo incomum a partir de símbolos ou objetos. É a proposição de soluções originais para as diferentes dimensões do cotidiano, seja ele subjetivo ou objetivo. As pessoas consideradas criativas são genuinamente curiosas e inventivas, tendendo a olhar o mundo sob ângulos não convencionais.

A criatividade está diretamente ligada a um método que requer dinamismo e ação, gerando o que se conhece por processo criativo, cuja definição está centrada no estímulo ativo de reflexões e ações que culminam em modos variados de expressão de sentimentos, ideias e pensamentos que vão além do que está posto. A criatividade pode, portanto, ser fomentada através do contato com os diferentes tipos de linguagem. Aí a importância da proximidade com o que é múltiplo e diverso. Provocar a criatividade é impulsionar a liberdade.

A linguagem literária, através de seu forte apelo estético, amplia as possibilidades de fuga dos padrões convencionais da língua e a consequente invenção de novas maneiras de expressão, a exemplo das escritas de José Saramago, Manoel de Barros, Valter Hugo Mãe e Machado de Assis, que apresentam – apesar das distâncias geracionais – estilos próprios e inventivos. Assim como a literatura, outras linguagens artísticas como a pintura, o cinema e a fotografia podem ser potentes ferramentas de construção de narrativas, capazes de arrojar a criatividade e, através de ações audaciosas, transformar o mundo.