Curadoria

Literatura e memória: fragmentos do tempo

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Fernando Pessoa[1]

Brás Cubas, personagem-chave da literatura machadiana, antes de desenlear para o leitor o fio da sua vida, afirma na epígrafe: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas[2]”. É sob esse verniz de um sacarmo refinado que o Bruxo do Cosme Velho lapida um jogo de espelho cujas nuances escancaram – como legado – a miséria de um homem comum.

Como se vê a partir da ótica de Machado de Assis, as memórias são as múltiplas versões de uma mesma história, são elucubrações que rompem com as ideias de realidade e de construção ficcional. Não seria a literatura, portanto, a memória do personagem? Não seríamos nós – gente de carne e osso – também personagens de um grande teatro, como acreditava Quincas Borba[3]? É diante desse assombramento que literatura e memória se fundem por meio de fragmentos temporais e pessoais, se desenvolvendo em tantas vozes quanto possível e colocando o mundo em trânsito.

Por isso, para além da discussão que polariza a memória entre o concreto e o abstrato, é fundamental pensá-la como um registro: da identidade individual e coletiva; do patrimônio material e imaterial; da ressignificação da tradição e da vanguarda; e da (re)existência entre a fugacidade e a permanência. São experiências que se compõem e recompõem ao curso da História, que ajudam a demolir as especulações e que provam que somos aquilo que lembramos ou queremos lembrar.

Ao trazer ao centro do palco o tema Literatura e memória: fragmentos do tempo, a 39ª Semana Literária Sesc & XVIII Feira do Livro Editora UFPR celebra a multiplicidade de ideias e as muitas interpretações do real. Esse é também um convite para pensar e fazer literatura por meio da intersecção com outras linguagens artísticas em uma programação intensa que promove debates, oficinas, apresentações musicais e teatrais, exposições, lançamentos de livros e exibições de filmes.

A 39ª Semana Literária Sesc & XVIII Feira do Livro Editora UFPR é um tempo e espaço de protagonismo, representatividade e diálogo – como exercício de ver o outro em si.

Para dar corpo à discussão, o tema se desdobra em quatro eixos:

Memória: o povo como personagem

A História de um povo é, antes de tudo, uma construção social: um quebra-cabeça que representa a memória coletiva estabelecida pela tradição. Diante desse enigma, descortinam-se os equívocos, principalmente, o silenciar das ancestralidades e dos povos originários.

Ao provocar e problematizar o resgate das muitas culturas que formam uma nação como o Brasil, derrubam-se as lendas que ainda vendem uma memória pré-fabricada e pré-estabelecida, e quebram-se as correntes que prendem boa parte do povo a uma identidade que não é a sua.

Dimensões temporais e suas histórias

A memória, explica o professor Ettore Finazzi-Agrò[4], é o intervalo entre o silêncio e a palavra. Sob esse prisma, é a partir da ideia de tempo – e, por isso, intervalo – que se estabelece uma interpretação e ressignificação daquilo que se entende por realidade. Portanto, é urgente enxergar a memória para além do passado e compreendê-la também como um evento do presente e do futuro.

Ao borrar esses limites temporais, a História ganha forma e, finalmente, começa a existir mesmo que não passe de uma interrogação sem resposta. Nesse sentido, não cabe à memória oferecer uma diretiva, seja de lucidez ou apagamento, mas é sim seu dever descobrir a linha-mestra capaz de promover encontros, fortalecer laços e formar vínculos consigo e com os demais.

Memória, aquilo que fica

Em questão de meses, testemunhamos o fogo consumir o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e a Catedral de Notre Dame, em Paris. E, anos antes, o Museu da Língua Portuguesa. Entre o reconstruir e o restaurar, fica-se o esqueleto das edificações, mas se vão todas as memórias guardadas através dos séculos e materializadas nos acervos.

No média-metragem  A Coleção Invisível, a cineasta portuguesa Rita Azevedo Gomes explora a imagem de um homem que compila papeis em branco e vive nas memórias das gravuras que um dia possuiu. Sem fazer ideia que sua a coleção evaporou, afinal está cego, o homem está mergulhado no inacreditável e na ideia que faz de todas aquelas peças, e não na fruição real delas. A metáfora de Gomes é certeira: para esse colecionador a memória é aquilo que fica. É o seu patrimônio – nos diversos sentidos da palavra.

Colocar na berlinda o debate sobre a preservação do material e do imaterial é trazer à tona uma importante discussão sobre as múltiplas narrativas capazes de contar uma mesma história. É, por outro lado, um exercício de alteridade e de chamamento para uma (re)construção da memória coletiva.

Memória: vivida ou inventada?

No conto “O Carrinho”, César Aira[5] revisita as memórias de um carrinho de supermercado abandonado no fundo da loja, largado entre seus pares e borrando a identidade daquele objeto, à primeira vista, inanimado. Nesse relato mínimo, o escritor argentino dá forma à vida a partir da invenção: constrói uma existência dentro do vazio – algo muito próximo ao que testemunhamos diariamente nas redes sociais quando os algoritmos informam ao usuário aquilo que não deve ser esquecido, mas estava longe de ser lembrado.

Na era da hiperconectividade, as emoções parecem embaladas a vácuo e com prazo de validade. Criam-se ficções para explicar a realidade, apaga-se tudo o que é desconfortável e se enaltece a resiliência como o preço pela felicidade. Esse mesmo estoicismo faz da memória a moeda de troca para uma falsa sanidade, que esconde um comportamento hedonista e dilacerado.

Como Freud e Kafka deixaram bem claro, em um cenário de radicalidade se torna possível radiografar as neuroses que são capazes de alijar homens e mulheres de sua própria memória. Portanto, falar em memória é, antes de tudo, buscar a verdadeira essência humana.

[1] PESSOA, Fernando. Tabacaria. In Poesia completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

[2] ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

[3] ASSIS, Machado. Quincas Borba. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

[4] AGRÒ-FINAZZI, Ettore. In MODIANO, Patrick. Primavera de cão. Rio de Janeiro: Record, 2015.

[5] AIRA, César. O Carrinho. In Pequeno manual de procedimentos. Curitiba: Arte & Letra, 2007.