Tão jovens porém

Marina Colasanti

Que bonitas podem ser as cidades donzelas! Cidades envelhecem rápido, na modernidade. O concreto não tem sido concebido para a eternidade, mas para a substituição, se entrega ao tempo quase sem resistência, em manchas, rachaduras, feridas que revelam aqui e acolá os vergalhões da ossatura. Mas uma cidade jovem guarda ainda a candura primeira, e se oferece ao olhar como menina vestida para a primeira comunhão.

Viajando em companhia de meu querido amigo e de longa data Ignácio de Loyola Brandão, para a Semana Literária do Sesc Paraná, atravesso o interior do estado, colhendo a cada dia uma cidade. Maringá, Umuarama, Paranavaí, Campo Mourão. Terminamos em Guarapuava. Ao redor, as plantações de cana despidas do seu verde, cochilam no amarelo dos restolhos, oprimidas pelo calor. Mas nas cidades é bom andar nas calçadas limpas das ruas largas, tão largas que muitas vezes há canteiros separando-as pelo meio, e no canteiro há flores. Gostam tanto de flores essas cidades mocinhas! De flores e de sombra. Em Maringá os jacarandás estão floridos, tudo é roxo, visto do alto. Umuarama escolheu ipês brancos, e quando florescem é uma festa, a branca espuma invade as ruas e os facebooks. Paranavaí misturou os amarelos e vermelhos. Encontro canteiros de gerânios e de cravos de Funto, sou recebida com margaridas e gerberas.

Aqui não há engarrafamentos, o trânsito gentil deixa espaço aos pedestres e ao silêncio, na tarde calma podem-se ouvir vozes que conversam, ou o martelo do vizinho que conserta alguma coisa. Os gestos parecem mais lentos, suspeito que a poeira se pouse mais devagar sobre as coisas.

Mas não existem paraísos, não terrestres, pelo menos. E já a serenidade uniforme de casas com jardins e prédios de apenas quatro andares vai sendo rompida, os espigões brotam, e as populações almejam shopping centers grandiosos. Os ovos da serpente estão no choco.

Fomos, Ignácio e eu, a uma padaria. É uma bela maneira de participar da vida de uma cidade, a ida à padaria. E uma forma segura de lanchar quando ainda é cedo, antes de ir ao encontro do público para realizar o trabalho que nos trouxe. Era uma boa padaria, quase vazia àquela hora da tarde. Tamboretes altos diante do balcão, a bancada de mármore entre nós e a moça que nos atendia. Jovem, a moça, e delicada. Trazia um nome tatuado no braço esquerdo, um nome composto, longo. Trazia outro nome tatuado no braço direito, curto, de mulher. E quando uma máquina esquentava os sanduíches e a outra coava o café, porque ela era tão gentil perguntamos de quem era o nome longo. Do meu marido, respondeu. E mostrando o outro acrescentou, da minha mãe. O do filhinho, apontou, estava na nuca. Tão jovem e já é casa?, dissemos. Viúva, respondeu ela, e a voz pareceu mais baixa, ou talvez fosse porque ela baixou o rosto.

Na saída, para que a delicadeza contasse pontos para ela, dissemos à dona da padaria que havíamos sido muito bem atendidos, a funcionária era excelente. E ela então nos contou que a viuvez era recente, a moça havia voltado ao trabalho embora o drama tivesse acontecido apenas 40 dias antes, deixando-a com um filhinho de 10 meses. A mãe dela cuidava agora do bebê. O jovem marido, envolvido com drogas, havia sido assassinado.

Crônica publicada na Revista Fecomércio PR, edição nº 90, de 2012.