João Donato estreia show de jazz no Femucic

Falta pouco para a 41ª edição do Femucic – Mostra de Música Cidade Canção entrar em cena. Além das apresentações das 26 músicas selecionadas para a mostra, o teatro Calil Haddad recebe o compositor, pianista e arranjador João Donato, no sábado (15/6). Depois de estrear nas unidades do Blue Note de São Paulo e Rio de Janeiro, o músico leva para Maringá o espetáculo Donato Instrumental e Jazz, acompanhado do trio formado por Robertinho Silva (bateria), Luiz Alves (contrabaixo), José Arimatéa (trompete e flugelhorn) e a participação de Donatinho (teclados), com quem faturou o Prêmio da Música Brasileira, em 2019, como Melhor CD Eletrônico, pelo álbum Sintetizamor.

É fato que entre os muitos idiomas estéticos do poliglota musical João Donato, que completa 85 anos dia 17 de agosto, está o jazz fluente. Ele fez um curso intensivo nos fã-clubes que surgiram no Rio, no pós-Guerra, como o Sinatra/Farney, fundado em 1949, num porão de uma casa na Tijuca. “A gente se reunia para escutar os raros discos que chegavam, trazidos por parentes que viajavam aos EUA ou por comissários de bordo. Trocávamos muita informação, íamos ao cinema várias vezes para assistir ao mesmo filme, porque era o cinema que antecipava as gravações que chegariam muito tempo depois pelos discos”, rebobina Donato.

Havia também o Dick Haymes/Lucio Alves Fã Clube, no Flamengo, rival do anterior e igualmente frequentado por Donato, que tinha ainda especial interesse pelo Progressive Clube, também na Tijuca, devotado à discografia do big band leader do Kansas, Stan Kenton (1912-1979). O laboratório sonoro do maestro americano incorporava conquistas da vanguarda fora dos padrões normativos do jazz, incluindo audácias de Stravinsky, com quem Kenton estudou, e o impressionismo do erudito francês Claude Debussy, cujos estudos e manuscritos, viraram livros de cabeceira do aplicado Donato. E enquanto a bossa nova fervilhava no Brasil, o acordeonista, pianista e (também!) trombonista nascido no Acre, mas criado no Rio, foi fazer seu doutorado ‘in loco’, nos EUA, no começo dos anos 1960. Além da ala latina do jazz (Cal Tjader, Mongo Santamaria, Tito Puente), Donato tocou com um dos integrantes da orquestra de Kenton, o saxofonista Bud Shank (1926-2009), com quem gravou em 1965, Bud Shank and his brazilian friends. Dividiram shows, e voltariam a se encontrar em 2004, para um disco e um DVD.

Donato também recebeu influências do toque suingado de Horace Silver, descendente de caboverdianos, o pai do piano jazz funky (não confundir com o funk de James Brown, nem com o posterior Miami Bass, que originaria o nosso batidão dos bailes). Outra de suas admirações foi o trompetista de vanguarda Shorty Rogers (1924-1994), cuja “Paradise found” funciona para Donato como um paradigma do tema de jazz. Muitos, aliás, atribuem à bossa nova forte influência do estilo cool do trompetista cantor Chet Baker (1929-1988). E eis que Baker tornou-se um integrante do grupo de Donato, em San Francisco. Mas numa briga de rua em que perdeu parte dos dentes, o trompetista americano ficou sem lugar na banda, onde acabou substituído pelo supra citado Bud Shank.

Mestrado, doutorado, aclamado pelo melhor show do Free Jazz de 2000, e ganhador do Grammy de melhor álbum de jazz latino, por Sambolero, em 2010, é este Donato que se apresenta agora em toda a sua pujança de instrumentista que domou o gênero americano – ao qual só se refere abrasileirando o sotaque, como “jás”. É o Donato que em 2001, como convidado especial da Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo, gravou um CD inteiro com suas composições. E que em 2017 gravou um CD inteiro com standards de jazz e temas de bossa nova de compositores de sua admiração, um produto encomendado pelo mercado japonês.

No repertório do show, João Donato confronta suas referências. Mistura temas próprios, como a precursora Minha saudade, gravada ainda em 1954, por Luiz Bonfá no violão e Donato no acordeon, muito antes da eclosão da bossa nova e de receber a letra de João Gilberto também parceiro em Glass beads (No coreto). Há ainda Bluchanga, um tema composto, quando o músico convivia com cubanos, porto-riquenhos e toda sorte de músicos do chamado latin jazz, nos Estados Unidos. Outras instrumentais, Uma para Duke, homenagem a Duke Ellington, criação dos tempos de América, também, e só gravada há poucos anos no álbum instrumental Bluchanga. E não faltarão pérolas dos álbuns instrumentais A Bad Donato, gravado em Nova Iorque, The Frog, Malandro, Celestial Showers; além da rara Aquarius, do álbum The New Sound Of Brasil, de 1966, com arranjos de Claus Ogerman, também gravado nos EUA; e ainda Amazonas, um clássico dos clássicos de João Donato.

Para gravar o primeiro disco sob seu nome, ainda um 78 rotações, em 1953, o músico teve de ver várias vezes o filme O convite, com Dorothy McGuire e Van Johnson, até aprender o tema Invitation (Bronislaw Kaper), já que não havia partitura da composição. No outro lado, registrou Tenderly (Walter Gross/ Jack Lawrence), “standard” da canção americana que teve Dick Farney (um dos patronos do Fã Club inaugural), entre seus lançadores, quando morava nos EUA. Estas duas músicas também entram no roteiro, ao lado de Paradise found (Shorty Rogers), Song for my father (Horace Silver), Black orchid (Cal Tjader), e a caribenha Repetition (Neal Hefti), do cardápio de Stan Kenton, além das consensuais Manhã de carnaval (Luis Bonfá/ Antonio Maria) e Speak low (Ogden Nash/ Kurt Weill), esta favorita de Billie Holiday e Chet Baker. Trafega por todas elas, um Donato muito à vontade, mas no rigor do refino instrumental atemporal.

Ficha Técnica:

Concepção: Instituto João Donato
Direção Musical: João Donato
Piano e voz: João Donato
Bateria: Robertinho Silva
Contrabaixo: Luiz Alves
Trompete e Fluglenhorn: José Arimatéa
Teclados: Donatinho
Produção Executiva: Acre Musical
Produção: Ivone Belem e Diogo Caldas

Serviço
Femucic – Mostra de Música Cidade Canção
De 13 a 15 de junho
Teatro Calil Haddad (Maringá PR)
Informações (44) 3265-2750