A necessidade orgânica de Curitiba

Semana Literária acontece na cidade em setembro para celebrar seus grandes autores.

sanguevodka

Por Lucas Lavor

Vá para o bairro Pilarzinho e encontre Leminski festando com sua família e amigos. Siga para o Parque Barigui e veja Karam passeando. Pegue o biarticulado, desça na Praça Osório e atravesse a Boca Maldita: talvez você encontre Snege fumando um cigarrinho. Suba uma quadra e Wilson Bueno caminha ao lado da Biblioteca Pública indo editar o Nicolau. Mais algumas quadras, vá até a Cinemateca e ocupe um assento ao lado de Xavier. Andar por Curitiba, dependendo da visão, é respirar literatura.

Em um espaço de 21 anos, a “capital literária” (que conta com o peso de Dalton Trevisan) perdeu os cinco escritores do parágrafo anterior.

O primeiro a partir foi Paulo Leminski (1944-1989). Nascido em Curitiba, o poeta de mil faces é um dos autores mais lidos no Brasil hoje. O bigodudo virou até roteiro turístico na cidade em que nasceu, viveu, bebeu e morreu em virtude de complicações hepáticas. Em sequência, Jamil Snege (1939-2003), talvez o escritor mais cult por conta da sua circulação limitada, se foi por conta de um câncer de pulmão (fumava muito). Pela mesma causa, Manoel Carlos Karam (1947-2007) faleceu alguns anos mais tarde e, um ano depois, o “escritor visual” Valêncio Xavier,  em decorrência de uma pneumonia (1933-2008). Por fim, vítima de um assassinato brutal, Wilson Bueno (1949-2010).

Por essência, “Curitiba sempre foi uma cidade literária, desde o tempo dos simbolistas. A maioria das revistas simbolistas surgiu na cidade. Nas primeiras décadas do século XX, muitos paranaenses dominavam a cena nacional. Com a revista Joaquim, em 1946, a cidade entrou de vez no mapa da literatura brasileira. A geração de Leminski, à qual pertencem os autores que você cita, consolidou isso” como explica o escritor ponta grossense Miguel Sanches Neto. A opinião é reforçada pelo escritor curitibano Cristóvão Tezza: “Curitiba tem uma imagem literária boa, consistente e original no resto do país. Que se fez principalmente pela presença impactante da literatura do Dalton Trevisan nos anos 1970, e, mais tarde, pela poesia do Leminski” conta o autor de Trapo.

É inquestionável que Curitiba tem Leminski como principal marco literário que exerce influência até hoje, assumindo o posto de cânone para uns ou pária responsável por uma produção poética duvidosa para outros. De um jeito ou de outro, é de leitura indispensável e de importância inegável. Para Sanches, a “sombra Leminski” se vê presente nas produções atuais. “Tanto na contemporânea quanto na produção posterior. Isso se vê em muitos escritores que fazem uma poesia curta, uma literatura mais de vanguarda. Foi o lado vanguardista de Leminski que encantou os escritores mais recentes”. Leminski publicou dezenas de obras, da poesia ao ensaio, nos dois extremos com a poesia minimalista e sua prosa experimental iniciando por Catatau (1975) e diversas produções poéticas como quarenta clics em curitiba (1976), caprichos & relaxos (1983) e outros, todos reunidos no livro Toda Poesia, editado pela Cia. Das Letras e uma das obras mais vendidas no país. A mesma editora também publicou Vida, reunião das biografias de Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski.

A “sombra” se estende até o “discurso oficial da cidade”, como afirma o autor de Chá das cinco com o Vampiro. “[Leminski] Se fez um elemento turístico, uma identidade. Mas não é culpa dele. Em vida, foi sempre um agressivo combatente de todas as formas de respeitabilidade social” pondera. Opinião compartilhada por Tezza, que configura a questão como extra-literária: “Acho ótimo que as cidades tenham uma relação afetiva forte com os seus poetas. Leminski é uma síntese forte de Curitiba, realmente uma figura inescapável da cultura curitibana”. No documentário Ervilha da Fantasia, produzido por Werner Schumann em 1985, um Leminski eloquente, reforçando o papel do poeta de revolta contra o sistema, diz: “o poeta não é uma excrescência ornamental da sociedade, e sim uma necessidade orgânica” e “eu não sei se todos os povos amam seus cientistas, mas todos os povos amam seus poetas”. Em definitivo, Curitiba ama Leminski.

A atenção dos leitores brasileiros para Leminski não se estende para nenhum dos outros escritores abordados nesta reportagem, como é o caso de Jamil Snege – talvez o mais cult de todos pelo “ostracismo inverso”. Curitibano do Água Verde, o “Turco”, como era conhecido por conta da origem árabe do pai, foi o grande galhofeiro em seus círculos. No total, publicou 11 obras, entre elas Tempo Sujo (1968), Senhor (1989) e o romance autobiográfico Como eu se fiz por si mesmo (1994), sempre por iniciativas próprias ou alternativas, fugindo do mercado editorial de convenção. Formou-se em Sociologia e Política pela PUC-PR. Na contramão artística de Leminski, Snege foi plural até onde se permitia: trabalhou principalmente com publicidade (Leminski também atuou na área, mas não teve papel preponderante como o Turco), mas foi dono de loja de antiguidade, serviu o exército na juventude (pelo CPOR) e escreveu para jornais. Nos últimos sete anos de vida assinou crônicas na Gazeta do Povo. Hoje, divergências familiares impedem que novas edições sejam editadas, mantendo o status de “cult”.

E isso (de ser cult) vem da própria postura do autor: no ano de 1998, em uma entrevista para a Gazeta do Povo, Snege afirmou – não sem temer ser interpretado como  elitista – que receava as exigências editoriais e não tinha interesse em ser lido pelo povo   “Porque eu acho que quando você trabalha com muita doação às pessoas, como eu faço, você procura manter uma conexão com quem vivencia o mesmo que você, e não com qualquer pessoa. Eu não me proponho a ser um autor para ser lido na praia. Acho que o Sidney Sheldon seria muito mais gratificante para esse leitor” afirmou o escritor. O assunto é incerto: também configurado como “extra-literário”, Tezza conta que a decisão de não ser lido era estritamente pessoal e que “Jamil não tinha interesse em ser editado nacionalmente. E não faltaram ofertas. Ele sempre preferiu cuidar artesanalmente dos próprios livros, controlando da capa à escolha das fontes. Não sei avaliar a escolha dele”, pondera. Miguel Sanches também define a via de contramão de Snege à Leminski e afirma o embate entre os escritores: “Ele queria ser lido, sim. Isto era apenas para impressionar. E para justificar o fato de que seus livros não tinham leitores. Mas o que mais aprecio nele foi a sua recusa de fazer sucesso a qualquer custo. Havia uma competição entre ele e Leminski. Jamil foi o primeiro namorado da Alice Ruiz, que viria a se casar depois com Leminski. E Leminski fazia sucesso. Jamil então criticava o sucesso fácil e se vingava indiretamente do seu adversário”.

Considerava-se “um profissional da comunicação, um trabalhador braçal da propaganda”, coisa que não impediu de se sobressair como escritor. No currículo, realizou campanhas pela Beta, sua agência, de Tony Garcia (ficou em segundo lugar na eleição para o senado) e, para o Governo do Estado, Rosimeri Kredens discursava contra o machismo com um olho roxo na TV (mais uma semana e ela venceria, segundo Jamil). Mesmo com sua vida profissional “à parte”, o Turco seria mais lido hoje, “mas não como ficcionista, e sim como cronista. No final da vida, sua dedicação à crônica dava o público que ele sempre no fundo desejou. E a crônica era um formato adequado ao seu ritmo lento de produção”, conta Sanches. “Jamil foi o cultor da frase perfeita. Era um escritor de fôlego curto porque tinha obsessão pela frase. A qualidade dele é, para mim, a mesma de um Raduan Nassar, autor também de origens árabes e católicas. Fomos muito amigos e tínhamos uma liberdade para nos criticar. Transformei esta arte amorosa da maledicência na marca de meu romance Chá das cinco com o vampiro”. Tezza completa: “O Jamil foi um minimalista refinado”.

E o que é Snege hoje? “Uma reserva de literatura que gostamos de manter em segredo, para que pertença apenas aos poucos entendidos”, desfia Miguel Sanches.

Experimento narrativo

De passagem para Nova Iorque em 1966, Manoel Carlos Karam assentou em Curitiba e por aqui ficou. A brincadeira foi feita em uma entrevista para a TV UFPR, em 2004. Nascido em 1947 em Rio do Sul, Santa Catarina, Karam iniciou-se no mundo artístico com a escrita da peça “O velório de Joaquim Silvério” em uma espécie de compromisso estudantil e, possivelmente, uma influência velada de seu pai que era ator e chegou a escrever algumas peças. Cursou jornalismo e passou pelas redações da Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná, além de trabalhar em TV. Depois de escrever dezenas de peças, deixou o teatro para estrear na literatura com Fontes Murmurantes (1985),  quando passa a se admitir oficialmente como escritor. Com prosa marcada pelo non-sense, ler Karam é viajar por uma Curitiba absurda – exatamente como ela é. Define o escritor e tradutor Ernani Ssó na orelha de O impostor no baile de máscaras (1992), “O humor de Karam varia do absurdo à alusão literária, da gozação de clichês à associações, do lírico ao curto e grosso. Em boa parte, exige cultura. Mas para o resto basta inteligência”. Tezza: “A literatura dele é extremamente pessoal; ele absorveu de uma forma muito original o espírito dos anos 70, quase um cruzamento de Cortázar com Woody Allen”.

As histórias já são conhecidas.“Em 1968 ou 1969 trabalhei numa peça escrita pelo Karam e dirigida pelo Ari Para-Raio. Lembro que em outro momento ele emprestou sua casa para alguns ensaios de ‘Os confinados’, uma peça que escrevi e dirigi. Nesse tempo a gente conversava bastante. Depois ficamos muitos anos sem nos ver, e os contatos foram esporádicos” conta Cristóvão Tezza. A preocupação de Karam com a escrita o fez abandonar o bar para não ser um escritor de fim de semana. Em 1997, Cebola é publicado, encerrando a Trilogia de Alhures do Sul, a Curitiba fantasiada do autor.

Admirado por escritores como Joca Terron, Manoel Carlos Karam tinha referências que, assim como ele, tinham a experimentação narrativa como lei. Nomes como Cabrera Infante e Campos de Carvalho faziam parte da lista de escritores que admirava e o influenciava. Sanches Neto afirma: “Karam se isolou em uma experimentação que em muitos momentos é árida. Ele tinha prazer em trabalhar a forma, mas isso virou um jogo, algo gratuito. Leminski e Jamil conseguiram ultrapassar os limites do trabalho formal e construíram obras mais universais, de interesse mais amplo, mais humano” conta. “Karam é um escritor para escritores adolescentes, que se encantam com as brincadeiras formais”.

Literatura visual e o Nicolau

Nas palavras de Valêncio Xavier, como escreve na orelha de Comendo Bolacha Maria em Dia de São Nunca, Karam se equipara a grandes escritores, como Machado de Assis, que escreveram somente uma única obra. No lançamento do livro de um, a entrevista para o jornal era realizada pelo outro. Assim como – apesar das divergências –  Jamil Snege foi o primeiro a resenhar Catatau para o jornal, o esforço conjunto para fomentar o mercado literário era de todos. É daí que todos, e centenas de escritores e poetas paranaenses, colaboraram com o Nicolau, editado na Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (SEEC) entre 1987 e 1996. O primeiro passo para o jornal foi dado por Adélia Maria Lopes, Luiz Antonio Guinski, Josely Vianna Baptista e, por fim, Wilson Bueno.

Valêncio Xavier (1933-2008) era um “escritor visual”. Chegou em Curitiba com 21 anos, vindo de São Paulo. Foi cineasta e se desenvolveu como profissional de TV. Em 1975 funda a Cinemateca de Curitiba. Com extenso currículo audiovisual, dirigiu filmes como Os 11 de Curitiba, Todos Nós (1995) e O Pão Negro – Um Episódio da Colônia Cecília (1993) e ganhou o prêmio “Melhor Filme de Ficção” na IX Jornada Brasileira de Curta-Metragem com Caro Signore Feline (1979). Publicou, em 1981, O Mez da Grippe em que experimenta algo como um “texto-montagem” em um discurso polifônico que mistura diversas formas de linguagem. Em 1998 é reeditado pela Cia. Das Letras, ganhando o Prêmio Jabuti de 1999 em Melhor Produção Editorial. Entre suas obras, lançou Curitiba, de nós (com Poty Lazzarotto, em 1975)), Meu 7º Dia (1998), Minha História Dele (1998) e Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido (2001). Colaborou frequentemente com contos para diferentes jornais, vários ilustrados por Poty Lazzarotto na Gazeta do Povo.

Para Miguel Sanches Neto, no entanto, Xavier “era um naïf da literatura. Tinha muita dificuldade para escrever, então vencia isso dialogando com o cinema, tevê e artes gráficas. Foi um cineasta que filmava com livros” reflete.  “Era o mais delirante dos escritores paranaenses. E adorava elogiar o próprio Valêncio. Acho a literatura dele superestimada. Fomos amigos por um tempo, mas ele era muito centrado em si mesmo, o que nos afastou bastante. Faz parte dos escritores para os quais a forma é tudo”. O autor de O Filho Eterno equilibra: “Era uma figura simpática e engraçada, e um talento bastante especial. Não sei dizer qual teria sido sua influência na literatura local – sempre entendi o Valêncio e sua obra como um caso único e intransferível”.

Wilson Bueno foi o escritor limítrofe, como já propõem sua principal obra, Mar paraguayo (1992), que mescla línguas e gêneros formando o acontecimento literário de sua vida. Vindo de Jaguapitã (PR), o escritor tinha como referências Guimarães Rosa, Machado de Assis e seu autor favorito: Franz Kafka. Publicou 16 livros no total, com a iniciação na cena literária advinda de Leminski, que fez o prefácio de Bolero’s Bar, em 1986. “Bueno ora se dá como menino abandonado (meio Dickens, meio “beat”)” escreve o autor de Catatau. Entre as obras, destaca-se Manual da Zoofilia (1991), Amar-te a ti nem sei se com carícias (2004) e A Copista de Kafka (2007).

Com tiragem mensal, durante seus oito anos de existência o jornal Nicolau Wilson Bueno foi responsável por movimentar a cena cultural. “Ele recolocou em circulação o Paraná literário com o Nicolau. Foi um grande articulador do local com o nacional. Mas usava também o jornal, que era público, para se promover e promover sua literatura. Mas todos devemos muito a ele. Eu devo minha entrada na cena literária. E sua prosa poética tem uma qualidade estética inquestionável”, afirma Sanches Neto.

Partiu Carlos Alberto Pessoa

Por Ernani Buchmann

Faleceu na manhã de 14 de agosto, depois de ser diagnosticado com um câncer que se revelou fatal em três semanas, o jornalista e escritor Carlos Alberto Pessoa. Nascido em Irati, Nego Pessoa, como era chamado pelos amigos, poderia fazer parte da matéria escrita por Lucas Lavor, que analisa a obra diferenciada de outros cinco autores paranaenses. Mas ao sugerir a pauta, ninguém imaginava que o autor, empenhado em escarafunchar a linguagem e as ruas de Curitiba – era um andarilho curioso, a fazer quilômetros diários calçado em tênis e vestido com agasalho de academia. Abaixo, um retalho da linguagem radical de Carlos Alberto Pessoa, radical também em suas opiniões, instruindo sobre o ato de se traçar uma feijoada:

“Come-se em silêncio reverente, obsequioso. Ou acompanhado de poucas, raras, boas palavras. Nada de política, essa abominação. Nada de futebol, chatice 24 vezes por segundo. Nada de religião, estritamente reservado. Nada de sexo, papo de gentinha. Nada de assuntos pessoais – ninguém é importante para falar de si, do repugnante ego. (Pessoas educadas não falam eu nem eles, falam sobre tópicos). Só uma bebida acompanha a feijoada. E não atende pelo nome cerveja. Ideal para comer salsicha. Feijão pede cana. De brava. Da boa. De gerais. Mineira. Da pesada. Branca. Teor alcoólico acima de 40°. Pro santo. E vamos nós. Saúde. Tchin-tchin”.

(do livro Modos&Modas, de Carlos Alberto Pessoa, Travessa dos Editores, 2009)

A Semana Literária em Curitiba

De 18 a 22 de setembro de 2017 das 10h às 20h30.
Dia 23 de setembro de 2017 (sábado) das 10h às 18h.

Endereço: Praça Santos Andrade

Telefone: (41) 3304-2266

A programação completa  está disponível aqui.

 

 

Postado em: Semana Literária