Vidas Refugiadas

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Refugiada no Brasil desde 2014, a jornalista cubana, historiadora, pesquisadora independente e antropóloga, María Ileana Faguagua Iglesias, virá a Curitiba, no dia 22 de setembro, para um bate-papo sobre Vidas Refugiadas, durante a 36ª Semana Literária Sesc PR e Feira do Livro UFPR.

Mimi é licenciada em História pela Faculdade de Filosofia e História da Universidade de Havana, pós-graduada em Etnologia e mestre em Antropologia Sócio-cultural. É diretora do programa de diálogos Intercultural e Inter-religioso da Comissão para o Estudo da História das igrejas na América Latina e no Caribe (CEHILA Cuba), também é fundadora do Mulheres Imigrantes de Ascendência Africana e Africanas (MIDAA) e do projeto Vidas Refugiadas.

Entre as premiações que Mimi recebeu estão o de pesquisa pela Universidade McGuell, de Montreal, no Canadá e conta com publicações em Cuba, no Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Jamaica, na Espanha e na Itália.

Confira a entrevista:

 1 – Historiadores e antropólogos descrevem o brasileiro como um povo cordial. Os noticiários mostram situações de xenofobia no Brasil. Como você vê este paradoxo entre a cordialidade e a intolerância?

A identidade é um fenômeno complexo. Sempre traz à tona aquilo que você é, como você pensa que é, e o como os outros veem você. Para completar o quadro, nesta época do espetáculo e das comunicações, temos que contar nesse processo com as imagens que estes projetam das sociedades.

E para nós, cientistas sociais, especialmente antropólogos e sociólogos, está aí como um elemento muito importante: os estereótipos, que são construídos pelos outros sobre nós, muitas vezes são incorporados acriticamente nos processos de construções identitárias ou de construções dos discursos próprios sobre estas.

Então, pelo que tenho pesquisado nem todo historiador ou antropólogo percebe realmente o povo brasileiro como “cordial”, mas muitos, acriticamente ou porque esta tem sido sua experiência, têm essa percepção. E para isso argumentam com a parte lúdica desta sociedade. Só que a festa e o espetáculo esportivo podem ocultar, em qualquer lugar, realidades que são muito complexas.

Nessas realidades contraditórias e complexas está à xenofobia que aqui, às vezes, se manifesta até como agressão verbal e física, levada esta última ao extremo da morte, para nos fazer duvidar de tanta cordialidade ou, quando menos, dos exageros de generalizar e de absolutizar, como se a sociedade brasileira for um monólito e todo brasileiro, automaticamente uma pessoa cordial.

Porém, é preciso o equilíbrio em todas as análises. Talvez mais próximo da realidade seja considerar o povo brasileiro numa cordialidade que não deixa de exprimir os seus medos e os seus problemas não resolvidos enquanto sociedade, como o racismo contra as pessoas não brancas, um racismo que é especialmente brutal contra as pessoas negras, por exemplo.

No entanto, a cordialidade para a pessoa considerada “a outra”, no Brasil não vai ser igual para todas. Vai ser muito difícil encontrar aqui cenas para mostrar xenofobia manifesta com europeus ou com pessoas brancas. Aqui por exemplo, não é igual a experiência de um cubano branco e de um cubano negro. Lembro-me de algum cubano negro que já tive a experiência de um processo judicial por ter sido discriminado por motivos étnico-raciais.

Mas não é isso aí que temos na mídia, exceto algum ato de xenofobia particularizado contra algum sírio, que é algo muito pontual ainda bem que tampouco deveria acontecer. Em verdade as pessoas que por motivos profissionais acompanham refugiados sabem que são muitos os brasileiros abalados pela situação dos refugiados da Síria e que mostram disposição para ajudar unicamente ao “refugiado sírio”. A xenofobia quanto à invisibilidade ou a critica em sentido geral é direcionada para os refugiados ou imigrantes africanos, por exemplo.

 

2 – Cubana e exilada política no Brasil. Você se vê como um sujeito com voz e história aqui? Como está sendo a (re)construção da sua identidade no país?

Pois não, eu ainda não me percebo como um sujeito com voz e história aqui. Fica difícil para mim até me desenvolver como sujeito, porque o sujeito tem possibilidades para participar, e isso é algo que por muito que lute ainda me aparece para mim como um direito muito limitado. Aliás, em sentido geral na sociedade brasileira a sociedade cubana se percebe muito estereotipada, e isso não colabora para eu aparecer como uma voz também cubana, mas diferenciada do discurso oficial construído pelo governo do meu país.

Tudo isso faz muito difícil para amplos setores desta sociedade aceitar uma pessoa cubana que não está imersa dentro do olhar estereotipado que tem sobre o que é um cubano. É quase impossível ter voz quando o outro não lhe quer ouvir e tenta lhe invisibilizar para ficar mais confortável na sua ideia.

Aos poucos, com muitas limitações e em um raio de ação extremamente pequeno, eu mostro outra maneira de serem cubana e igualmente outras narrativas da cubanidade e outros discursos de cubanos e sobre Cuba além do meu próprio. E tento assim mesmo mostrar outras partes da cultura cubana, que tem uma grande riqueza e aqui é quase somente identificada com o Buena Vista Social Club. Aventurando-me também a mostrar outras narrativas da história do meu país, porque nós tivemos história antes do ano 1959 e essa época não é precisamente como se pensa em muitas partes do mundo, mesmo no Brasil.

E eu esteja afim ou não, também eu sou a representação visível de que cubano nem tem que ser identificado com castrista nem com pró-imperialista. Cubano é, além disso, e como acontece com toda sociedade, uma heterogeneidade e pode manter a sua identidade nacional longe das fronteiras do nosso país e com recursos não só materiais senão também intangíveis, como os psicológicos e emocionais.

Quanto a (re)construção da minha identidade, em verdade essa não é neste momento uma opção para mim. Eu incorporo e também acomodo ao meu jeito e segundo as minhas necessidades alguns códigos culturais do Brasil. Passo também pelo processo de, na distancia, ter um olhar mais critico de alguns códigos culturais da minha sociedade.

Com tudo, a incerteza de não ter reconhecimento oficial para saber se poderei ficar no Brasil, me mantem numa situação de insegurança e isso me impede de trabalhar conscintemente na minha identidade me identificando como parte desta sociedade. A ausência de documentos faz com que eu me sinta num constante estado de transitoriedade e não como alguém que vai afundar raízes aqui, que vai fazer família ou trazer a família e me desenvolver aqui.

3 – Os refugiados encontram-se representados na literatura contemporânea? As produções literárias ainda são carregadas de estereótipos?

Na literatura de quais países? Não conheço muito da literatura brasileira de ficção, tenho me focado mais na literatura das ciências sociais.

Do que conheço da literatura universal percebo bem mais presente nela os migrantes que os refugiados. As diferenças culturais parecem menos problemáticas para os literatos que as diferenças politicas. Até porque às vezes o reflexo unicamente das diferenças culturais com uma perspectiva critica do assunto, tem sido motivo de serias e feias controvérsias, de intolerância e até de ameaças de morte para os escritores.

Mas pode que por ter sido eles mesmos exilados ou, para usar a nova categoria, refugiados por motivos políticos, a surafricana e premio Nobel de literatura Nadine Godimer e o escritor cubano Carlos Alberto Montaner, por exemplo tem trabalhado o exílio político como eixo em algumas das suas obras literárias.

Mesmo que escritores chilenos exiliados do período da ditadura militar de Pinochet e escritores nicaraguenses.

No caso dos cubanos exiliados neste quase sessenta anos do governo dos irmãos Castro, são muitos os literatos e artistas de Cuba que utilizam o exilio como eixo das suas criações.

Observo com preocupação e tristeza que essa não é uma literatura que resulta em geral atraente para editores nem é interessante para os críticos literários. E, não sei se por isso, não tem uma grande demanda entre os possíveis leitores.

4 – O Brasil está estruturado para receber refugiados que são mais de 39 mil pessoas? O que precisa ser criado e aperfeiçoado?

Não. Até o presente o Brasil não tem estrutura para dar acolhida aos refugiados. E não por estes serem muitos, que não são. Nem os solicitantes nem os refugiados representam cifras significativas neste país. Por isso é um exagero falar de “crises de refugiados” aqui. Menos de 40 mil solicitudes de refúgio e menos de 10 mil refugiados não deveriam constituir um problema num país com as dimensões e as riquezas do Brasil.

A “crise” é um produto criado pelo discurso de interessados, vai saber o porquê. Mas esse discurso tem um lado muito ruim, que é expandir a ideia na população brasileira de que o refugiado ameaça a sua estabilidade ao interior do seu próprio país. Algo que pode estimular a xenofobia, pois ante uma ameaça é lógico reagir com medo e humanamente existe a tendência a traduzir os medos em violência.

A verdade que tampouco no plano qualitativo os refugiados são um perigo para a identidade desta nação.

Receber refugiados significaria, na boa, criar uma mínima estrutura de políticas públicas que sejam favoráveis ao reacomodo do recém-chegado. Do contrário o recém-chegado, que na maioria das vezes é literalmente um fugido e pelo mesmo carece de recursos económicos e duma rede de apoio para se guiar no novo panorama (físico, sociológico, institucional, etc.), fica sem saber o que fazer, onde morar, como vai conseguir se alimentar, etc. E muitos deles não dominam a língua portuguesa, pelo qual não conseguem se comunicar e entram em estresse, se estabelecendo entre eles e as pessoas no lugar de acolhida um diálogo de surdos que pode terminar criando um problema onde não tem que existir.

O país então, para dar uma verdadeira acolhida, precisaria duma política direcionada para isso, pensada e estruturada além da emergência. Essa política deveria incluir não só o primeiro assistencialismo. Deveria contar com recursos primários de ensino dos códigos culturais, éticos e legais deste país, também uma política direcionada enfaticamente nas mulheres e nas crianças. E deveria se aceitar e estimular, como estipulam os protocolos internacionais assinados pelo Brasil, a participação dos refugiados na organização dessa estrutura, mas não meramente simbólica e sim com voz, o qual não deveria ser confundido com a imposição de nenhuma das partes, e sim um equilíbrio e reequilíbrio das necessidades segundo o caso pontual.

Um país que acolhe refugiado deveria ter uma atitude de valorização para os diferentes. E para isso deveria se programar e por em pratica uma política educativa nacional que contemple as diferenças e com um enfoque que perceba estas como riquezas. E deveria valorizar também a heterogeneidade das pessoas refugiadas. Acho fundamental isso para realmente estabelecer uma boa política de acolhida e de inserção e para quebrar estereótipos, nos quais muitas vezes fica fechado e ancorado o refugiado.

5 – Como se dá o acesso a elementos culturais do seu país e como tem sido o consumo e acesso a produções culturais locais? A cultura, no seu conceito mais amplo, tem sido inclusiva ou excludente?

Resulta para mim interessante e esperado contar com tão parco contato direto com a cultura do meu país, eu quero dizer dum modo “direto”, desde a nossa ilha mesma. É esperado por mim conhecer as condições materiais e de recursos tecnológicos do meu país, que são muito pobres e controladas. É igualmente esperado por mim conhecer que existe uma política de isolamento forçado direcionada para os cubanos que não estamos no país nem somos oficialistas.

Então o meu contato com a cultura do meu país neste momento se dá, poderia se dizer que indiretamente, principalmente através dos cubanos que moram no exterior. Fundamentalmente em contato com a comunidade cubana de Miami, Flórida, que é a primeira e maior comunidade constituída por cubanos diaspóricos. Uma comunidade que também tem uma história de desenvolvimento artístico e intelectual, muito preocupada em preservar nossa identidade nacional e transmiti-la às novas gerações nascidas ou criadas na diáspora.

Desde lá eu consumo, quase sempre via internet, literatura, cinema, artes plásticas, teatro e musica cubana. Lá eu encontro ouvidos quando preciso desabafar ou simplesmente falar minha língua. Esse contato me livra do sentimento de isolamento e me faz sentir menos a solidão. Isso não só por serem esses cubanos também refugiados, senão porque desde aqui restabeleço minha rede de amizade pelo mundo e conheço outros cubanos e estrangeiros dos quais viro amiga.

O contato com Miami também me permite contatar com outros intelectuais cubanos e desse modo sinto-me parte da intelectualidade cubana quando o governo do meu país e a intelectualidade oficialista me exclui desse universo profissional nacional do qual sou parte natural. É em contato com Miami que eu continuo tributando à cultura cubana, pois publico em publicações de cubanos pelo mundo e participo das controversas e da elaboração de pensamento com relação a nossa cultura.

Então eu posso seguir experimentando o fato de me sentir parte da cultura cubana longe da minha realidade de origem e esteja no lugar que esteja, falando a língua que fale. Algo que é muito bom e estimulante para mim, sobretudo quando até o presente não se tem dado condições para eu me sentir realmente inserida na sociedade brasileira, nem sequer  profissionalmente.

6 – Na sua visão, os refugiados têm melhor condições de qualidade de vida no Brasil ou nos seus países de origem?

É difícil responder essa questão. Para tentar ser equilibrados e panorâmicos, não pode ser uma resposta unidirecional. A anterior situação da vida de cada refugiado está em dependência do país de origem e até das condições particulares de vida familiares e individuais do sujeito particular. Pode acontecer também com a situação no presente, pois alguns deles têm condições para se relacionar com os familiares estejam aqueles ou não no país de origem, mas outros não. Alguns podem ser ajudados economicamente pelos familiares e outros não.

No entanto faz parte dos estereótipos sobre refugiado acreditar que este é um coitadinho e que morria de fome antes de chegar ao Brasil. Mas essa ideia é um absurdo total, até porque pensar assim significa que não se tem a tona o motivo particular pelo qual a pessoa teve que fugir e pelo qual é aceito em condição de refúgio, que é estritamente político, religioso ou sexual.

Tem refugiado que estava muito melhor economicamente no seu país, e que aqui passa fome carece de tudo ou até está em situação de rua, e pior ainda, que aqui é absolutamente desrespeitado, que é a parte mais dolorosa do assunto porque afeita a dignidade e a integridade moral do ser humano.

Tem refugiado que estava em situação material precária no seu país, precisamente a consequência de ter mexido com política. Ou tem outros refugiados que sempre ou muitas vezes estiveram nessa situação de precariedade material, até porque o país é pobre ou sofre ditaduras, corrupção, etc. As estadísticas revelam que uma ampla porcentagem deles tem formação universitária e falam fluentemente várias línguas.

Outros refugiados, ainda que provem de países pobres, economicamente tinham uma situação de privilégio. Muitos deles, de países pobres ou não, são profissionais, ainda que aqui sofram desprezo e sejam considerados quase analfabetos. Eles e elas são um capital cultural desaproveitado no Brasil.

Com tudo, é o assunto do desrespeito e da desvalorização do sujeito o que faz a situação do refugiado, em sentido geral, mais difícil no Brasil.

O desconhecimento da história e das realidades de muitos países faz com que na sociedade brasileira se pense que o refugiado é alguém inferior e se tenda então a colocar essa pessoa em situação de inferioridade e de submissão.

7 – O que o público pode esperar da sua participação na 36ª Semana Literária Sesc PR e Feira do Livro?

Acho que minha participação na 36ª Semana Literária Sesc PR e Feria do Livro pode ser interessante para ambas as partes, para o público e para mim mesma. No meu caso, a nível não só profissional quanto humano (caso de ambos poderem ser separados, o que é difícil).

O fato do público brasileiro não estar familiarizado com a heterogeneidade da sociedade cubana nem com muitos outros discursos e narrativas produzidas por cubanos que versam ou não sobre a cubanidade (porque o cubano é um sujeito muito universal, no qual o amor pelo local coabita com sua ânsia pelo conhecimento do mundo e com a sua vontade de se identificar nesse mundo), mas que sem dúvidas classificam como cubanas, poderia resultar interessante para ouvidos abertos e para mentes receptivas ou simplesmente para pessoas que buscam outras coisas, por exemplo, outras literaturas, outras elaborações de pensamento.

No plano pessoal vai ser para mim uma extraordinária possibilidade de me aproximar duma diversidade de realidades brasileiras. No sentido de visitar outra cidade num país que geográfica e culturalmente é tão diverso, no sentido de me aproximar de intelectuais e escritores, um contato que para mim aqui tem sido muito escasso. No sentido de me aproximar das obras deles e de ter a possibilidade de falar da minha e das obras de outros autores cubanos, a maioria dos quais são aqui desconhecidos.

 Por: Silvia Bocchese de Lima e Andressa Parra

Serviço:

Dia: 22/09/2017
Horário:11h00
Local: Praça Santos Andrade | Curitiba PR
Agendamento: Os ingressos são gratuitos e poderão ser retirados 1h antes de cada evento no estande do Sesc Paraná.

Postado em: Semana Literária