
Por Zulmara Posse
Os humanos diariamente assentados em um espaço geográfico, produzem bens que se materializam em objetos e bens não materiais que orientam o comportamento e dão sentido à existência dos indivíduos, grupos e sociedades. A totalidade destes bens compõe o patrimônio cultural, sendo transmitido como conhecimento às novas gerações.
Nas sociedades complexas e heterogêneas como a nossa, o registro escrito e a oralidade são os meios de transmiti-los. A oralidade utiliza a linguagem falada e a linguagem corporal para expressar todos os seus conteúdos abrigados na memória social dos humanos. Ambos são elementos de comunicação atualizados a cada gesto e palavra, e sem eles a sociedade não funciona.
A produção humana, isto é, a cultura, compreende, portanto, um acervo de bens não materiais que sustentam os bens materiais definindo como, porquê e para quê servem. Logo, cada sociedade, possui uma cultura com o seu modo particular de viver e explicar a vida.
Viver em uma sociedade significa experienciar a cultura ali produzida mantida na memória social como uma tradição e sentindo-se pertencer a ela. No mundo contemporâneo, apesar da internacionalização da informação, os indivíduos continuam sendo socializados nos grupos familiares, de vizinhança, da escola, das religiões, dos bairros, das cidades...
Suas existências concretas ocorrem em um lugar onde recebem e contribuem com a experiência dos grupos num processo dinâmico de interação entre os indivíduos e da tradição com a inovação. Os bens culturais resultantes deste processo se expressam em objetos facilmente reconhecíveis por todos os indivíduos, assim como valores, dando finalidades a eles. Os bens materiais trazem, pois, em si, a definição de sua destinação a partir da concepção imaterial da cultura com concretude menos evidente porque encontra-se como valores, regras e normas apoiada na tradição. A grande dificuldade da percepção dos bens não materiais reside no paradoxo de que para situar-se concretamente no tempo e espaço, os humanos utilizam elementos atemporais e sem espacialidade, como os benzimentos, os jogos infantis, as brincadeiras, o uso das ervas, as fábulas, as receitas culinárias, a música, a dança, o canto, as encenações e o folclore, entre tantos outros. A motivação dos indivíduos que as praticam reside na possibilidade de intervenção na realidade por uma via simbólica.
Nesta perspectiva, a linguagem falada se transforma em outra linguagem no conjunto de vozes do coral no qual o instrumento fundamental são as cordas vocais associadas às notas musicais. Estas ao serem acionadas por instrumentos materiais, produzem outra linguagem, a música, que juntamente à linguagem corporal, resulta na dança.
Musica, canto, dança são os elementos das representações teatrais e folclóricas que ao relacionar o passado com o presente, apontam para o futuro. As possibilidades de associação destas matrizes, música, canto, dança e linguagem falada, são inúmeras. Como um conjunto de produção não material da cultura, possuem a característica de serem consumidas simultaneamente à sua produção. Gestos, vozes, notas musicais, ao serem executadas, deixam de existir devendo nascer a cada representação que nunca será a mesma nem igual. Cada apresentação é sempre única, fluida, centrada no desejo dos indivíduos de situar-se no tempo e espaço de uma determinada cultura. Tal pertencimento caracteriza a construção das nacionalidades, das regionalidades, das identidades e a variedade das expressões culturais.
O inventário cultural, ao organizar e dar visibilidade a tais modos de comunicação, propicia a interação entre os diversos segmentos da sociedade. Percebido como um bem cultural, torna-se um elemento precioso na elaboração de políticas voltadas ao atendimento dos grupos. O inventário cultural realizado pelo SESC PARANÁ, centrado na linguagem corporal, vocal, musical e teatral, mapeou uma imensa diversidade de grupos musicais, teatrais, de dança, de banda, folclóricos e vocais.
De acordo com a autodenominação dos grupos, as bandas caracterizam-se como: de metais, de sopro, sinfônica infantil, com repertório marcial, marchas, erudito, gospel, clássica, natalina, gótica, sul-americana, brasileira, regional, paranaense, étnica, caipira, gaúcha, sertaneja, country, mpb, pagode, samba, choro, forró, jazz, trash, heavy metal, black metal, punk, rack, britpop, pós-funk, reagge, blues, de garagem, alternativa e contemporânea. Compreende grupos com quatro a quarenta e cinco membros.
Os corais são definidos como estudantil, infantil, feminino, adulto, erudito, de câmara, clássica, libras, renascentista, barroco, sacro, gospel, folclórico, gótico, étnico, natalino, popular, mpb, internacional e possuem entre 26 e 70 componentes.
Os grupos de dança variam dos cadeirantes, de salão, com repertório folclórico, rap, moderno, clássico, street, contemporâneo, back, infantil, juvenil, adulto ou misto, com um número de 50 a 130 componentes.
Os grupos folclóricos apresentam a variedade da formação étnica do Estado do Paraná como folia de reis, guarani, negro, tropeiro, paranaense, ctg, polonês, ucraniano, italiano, libanês, espanhol, suábio, alemão, andaluz, árabe, lusitano, romeno, holandês, e compreende entre 10 e 150 membros.
Os grupos musicais caracterizam-se como sendo de viola, corda, percussão, instrumental, fanfarra, sacro, erudito, gótico, gospel, marcial, étnico, folclórico, caipira, popular, forró, sertanejo, mpb, chorinho, pop-rock, rap, internacional, vocal e possuem entre 2 e 56 componentes.
Os grupos de teatro podem ser de palco, de rua, de performance, de bonecos, de animação, de máscaras, de sombra, da terceira idade, jovem, infantil, estudantil, de comédia, religioso, de pesquisa e com número de membros entre 1 a 150.
As orquestras variam entre sinfônica, harmônica, de acordeom, de viola, de metais, de violão, com repertórios clássicos, evangélicos, marciais, mpb, ecléticos, barroco, e possuem entre 8 e 100 componentes.
Considerando todas as modalidades de expressão cultural e o total numérico, a região metropolitana é a mais representativa, seguida das regiões oeste, norte central e centro sul.
A região metropolitana possui o maior número de bandas, corais, grupos folclóricos e orquestras. A região oeste os grupos de dança e musical. E o norte central os grupos de teatro.
Em relação aos grupos de dança, predomina nas regiões oeste, sudeste e sudoeste, o repertório definido como variado, enquanto nas demais regiões o moderno e o contemporâneo.
Os grupos de dança, organizados em torno de comunidades de bairro, escolas, igrejas e prefeituras, são mais freqüentes nas regiões sudeste, sudoeste, noroeste e centro sul, prevalecendo nas demais regiões os grupos de dança formados por pessoas que não tem vínculo nenhum vinculo institucional.
Os grupos de teatro definidos como de palco, são os mais freqüentes em todas as regiões, seguido dos de rua, performance e animação, principalmente nas áreas centro oriental, norte central e oeste. Na região metropolitana, o teatro de bonecos é o mais representativo. Os grupos de teatro não vinculados às instituições predominam em todas as regiões, exceção ao sudoeste onde os comunitários são mais freqüentes.
Prevalecem nas áreas oeste, sudoeste, sudeste, centro oriental e norte central os grupos folclóricos alemães enquanto os grupos poloneses nas regiões centro sul e metropolitana. Nas áreas do norte pioneiro e noroeste, os grupos folclóricos japoneses são mais representativos. A maior diversidade de grupos folclóricos ocorre nas regiões centro oriental, centro sul, metropolitana e oeste. Toda a área norte do Paraná, assim como a oeste e a metropolitana, tem, juntamente ao folclore europeu, a folia de reis, característica da cultura caipira.
Em todas as áreas do Estado do Paraná, os corais comunitários são os mais freqüentes. Nas regiões metropolitana, centro oriental, noroeste e sudoeste, 40% a 50% dos mesmos são organizados por instituições públicas. O repertório variado, com membros adultos masculino e feminino predomina em todas as regiões, com exceção do norte pioneiro e central onde o repertório religioso e sacro é mais freqüente.
A maior diversidade no repertório dos corais ocorre nas regiões oeste e metropolitana, e o número mais significativo de corais infantis, na área oeste e norte central.
A música como expressão organizadora dos grupos, compreende as orquestras, as bandas municipais e os grupos musicais independentes. As bandas municipais, do tipo fanfarra, com repertório variado, são maior número entre as outras, em todas as regiões, à exceção da área centro sul, que possui repertório erudito, mpb e popular e o norte central com repertório marcial.
As orquestras são mais numerosas na região metropolitana, oeste e centro sul, ocorrendo as sinfônicas, com repertório clássico nas áreas oeste, noroeste, centro ocidental, sudeste e metropolitana. A maior variedade de orquestras e repertórios localiza-se nas regiões metropolitana e oeste.
Entre os grupos musicais, o repertório variado é o mais freqüente nas regiões oeste, sudeste, centro oriental e norte central, enquanto o rock, com suas variações, nas regiões metropolitana e centro sul, e a mpb na área do norte pioneiro.
As duplas sertanejas estão presentes em todas as regiões, assim como o repertório gospel. A maior diversidade de repertório encontra-se nas regiões metropolitana e oeste.
A expressão musical, revelada pelas orquestras, bandas e grupos musicais, atinge em todas as regiões índices significativos em relação às outras modalidades. Exceção à área do sudoeste, nas demais regiões, a expressão musical varia entre 25 a 47% dentre todas as modalidades registradas. É igualmente na expressão musical que se observa a maior variedade de repertórios, principalmente entre os grupos musicais. Estes, em relação às bandas e orquestras, são os que possuem maior fragilidade temporalmente, pois as entradas e saídas corriqueiras nas bandas e menos freqüentes nas orquestras, não significam rodízio, mas recomposição ou redução dos grupos. Centrados nos indivíduos, e não em instituições, refazem-se e desfazem-se continuadamente incorporando as tendências da realidade social.
O inventário cultural ora realizado, tem data, isto é, não será o mesmo daqui a alguns anos. A dinâmica cultural deverá revelar outros repertórios em todas as modalidades, pois os humanos criam e recriam a cada dia de acordo com a realidade em que vivem. As características gerais deste momento, registradas no levantamento realizado indicam as possibilidades da intervenção direcionada para dar suporte e visibilidade ao que é mais ou menos emergente, mais ou menos viável, mais ou menos frágil, mais ou menos significativa, mais diverso, mais específico...
Como um mapa, apresenta caminhos, orientação, marcos que os homens transeuntes da vida, seguem em cada cultura e sociedade, em que se localizam.